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Reflexões sobre os abrigos de animais como estratégia de MPCG

Escrito por: Anita de Souza Silva
Revisado por: Lucas Galdioli

A alta densidade de animais, como cães e gatos, nas ruas é uma realidade em todos os municípios brasileiros. Tal problemática acontece por inúmeros motivos, dentre eles, a falta de informações sobre os princípios básicos da guarda responsável, acesso livre às ruas e a rápida reprodução destes animais. O aumento da população de cães e gatos em situação de rua tem sido considerado como um problema para a saúde pública, pois estes podem ser vítimas da maldade humana, sendo expostos a situações de maus-tratos, estar envolvidos em acidentes nas vias públicas e aumentar o risco e a disseminação de doenças, principalmente com potencial zoonótico.

Ao longo dos anos, as medidas do controle populacional de animais errantes por meio do recolhimento e extermínio mostrou-se como uma alternativa extremamente ineficaz, agravando o problema e não conseguindo solucionar esta situação. Com o intuito de minimizar situações como estas, as ações do Manejo Populacional de Cães e Gatos (MPCG) devem ser desenvolvidas com o envolvimento de todos os segmentos das esferas municipais, estaduais e federais. O MPCG é um programa estratégico para manter ou modificar a dinâmica populacional dos cães e gatos. Este programa deve abordar estratégias para evitar e diminuir a presença da grande quantidade de animais soltos em vias públicas, preservar o meio ambiente e ter como principal foco a saúde única.

Os abrigos de animais surgem como uma medida eficaz  para integrar um programa de manejo dos animais em situação de sofrimento e risco nas ruas, propiciando uma melhoria na vida deles e diminuindo impactos na saúde pública. Os abrigos são instalações de manutenção temporária que condiciona determinado número de animais que foram resgatados das ruas, geralmente oriundos do abandono ou do semi-domicílio. Entretanto, os abrigos não podem ser vistos pela sociedade como um depósito de animais ou local de descarte para animais que se tornaram indesejados pelos tutores.

Os abrigos de animais devem incentivar a adoção dos animais resgatados e este servir como um apoio para reabilitar os animais para encontrar um novo lar e ter uma melhor qualidade de vida. Estes têm como objetivo recuperar e reintroduzir os animais na sociedade, devem dispor de atendimento veterinário e ser referência nos cuidados e bem-estar dos animais e atuar no incentivo da promoção da tutela responsável, a fim de evitar os maus-tratos e o abandono.

Atualmente, no Brasil, muitos abrigos privados têm uma função social de extrema importância na recuperação de muitos animais e na promoção de adoção e educação da população frente aos maus-tratos e abandono, visto a carência de políticas públicas e negligência dos governos frente a esta problemática. Muitas vezes são as únicas ferramentas que a cidade possui para promoção da guarda responsável, adoção e controle reprodutivo de cães e gatos. Apesar disso, é importante constatar que os abrigos, como medida e estratégica única, não são a solução para o manejo e redução do número de animais em situação de rua e para a coibição do abandono. Mesmo funcionando como casas de passagem para a recuperação, tratamento e ressocialização, abrigos exigem rigorosos trabalhos e esforços para a sua manutenção e para a promoção de bons níveis de bem-estar dos animais.

Tendo a compreensão que o abrigo de animais é uma das estratégias do MPCG e que sua implementação única nos municípios não será efetiva no decréscimo da taxa populacional de cães e gatos, é necessário ter todo um planejamento para sua criação e manutenção. O planejamento envolve algumas etapas, como: entender a necessidade da comunidade, criar e concretizar os valores, a criação de uma rede de apoio, definir os protocolos e as políticas internas e promover a divulgação.

Ainda existem muitos abrigos no Brasil que apresentam condições precárias, e um número excessivo de animais, o que favorece a disseminação de doenças, fome, ausência de cuidados veterinários ou até mesmo ocasionar o óbito por não conseguir manter estes animais. Dessa maneira, para o resgate de novos animais e manutenção dos que já estão abrigos é necessário ter um planejamento dos recursos financeiros e humanos, e implementação de políticas internas adequadas à realidade local, com metas a partir do número de animais que a instalação suporta, ações para que a duração da estadia seja a menor possível e implantação e monitoramento da eficiência de seus programas. É obrigatório que todos os animais abrigados tenham ao máximo suas necessidades psicológicas, sociais e comportamentais atendidas, propiciando-lhes riqueza de estímulos, afeto e interação.

Referências

ARRUDA, E.C.; NORONHA, J.; MOLENTO, C.F.M.; GARCIA, R.C.M.; OLIVEIRA, S.T.Características relevantes das instalações e da gestão de abrigos públicos de animais no estado do Paraná, Brasil, para o bem-estar animal.Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.71, n.1, p.232-242, 2019.

GALDIOLI, L.; POLATO, H.Z.; WOLF, L.R.; GARCIA, R.C.M. Reflexões para a criação e implantação de abrigos de animais. Clínica Veterinária, Ano XXVI, n. 153, p. 16-22, 2021.

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