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Controle de doenças infecciosas em abrigos

Escrito por:

Náthali Milena Duarte Bezerra

Pedro Felipe Loiola de Souza

Revisado por:

Lucas Galdioli

Os abrigos são ambientes de instabilidade biológica por haver trânsito constante de grupos heterogêneos de patógenos. Por esse motivo, surtos de doenças infecciosas podem ocorrer predispondo a ocorrência de doenças emergentes. Dessa forma, os programas de manejo sanitário desempenham um papel importante tanto em evitar a entrada de agentes infecciosos quanto em evitar a disseminação e modificação desses microrganismos no próprio abrigo. Um programa de gerenciamento focado em boas práticas de biossegurança deve ser instituído nos ambientes de abrigo, e o objetivo principal desta abordagem é minimizar o risco de doenças infecciosas, considerando possíveis rotas de infecção e mantendo a circulação de patógenos o mais baixa possível nestes locais.

Diversos fatores envolvendo a tríade epidemiológica (ambiente-agente-hospedeiro) afetam a transmissão, suscetibilidade e exposição de animais a doenças infecciosas dentro dos abrigos. Os fatores que facilitam isso, dentro de um ambiente de abrigo são: (1) a alta densidade e proximidade entre os animais, que facilita a transmissão de patógenos por aerossóis, por fômites ou por contato direto entre outros animais; (2) a rotatividade entre os animais, que contribui para a inserção de agentes patogênicos; (3) o estresse nesses ambientes (desencadeados por barulhos excessivos, manipulação dos animais, limpeza das baias, dificuldade em expressar seus comportamentos naturais e socialização, por exemplo), que induz a imunossupressão dos animais e aumenta a suscetibilidade de infecção e transmissão de doenças infecciosas; e (4) medidas inadequadas de higiene e de vacinação são comuns, facilitando a disseminação de agentes infecciosos e manifestação de doenças.

Outros fatores relativos ao hospedeiro como nutrição e a vacinação têm um papel central na prevenção de doenças pois são aspectos em que a execução e a manutenção são mais simples e obrigatórias, assim como a necessidade de prover as cinco liberdades para garantir, ao máximo, um bem-estar alto e uma qualidade de vida aos animais; aumentando consideravelmente a chance desses animais em resistirem às doenças. Apesar da existência de diversos programas de controle sanitário em abrigos, doenças como FIV e FELV em felinos, e parvovirose em cães podem ocorrer, por isso é de extrema importância trabalhar com a medicina veterinária preventiva em abrigos, para evitar que surtos de doenças infecciosas sejam minimizados ou até mesmo evitados.

Diante disso, um adequado programa de biossegurança deve ser dividido em elementos físicos (por exemplo, barreiras), e elementos relacionados às práticas dos processos, que se refere a todas as maneiras como as pessoas utilizam as instalações do abrigo e como os animais dentro delas são manejados. Algumas das medidas destinadas a reduzir a propagação de doenças infecciosas incluem a regulamentação das condições de alojamento, quarentena, isolamento, implementação de testes para conhecimento das doenças infecciosas, vacinação adequada a fim de desenvolver a imunidade de rebanho, boa gestão da higiene e redução do estresse. É importante lembrar que a aplicação dos princípios de biossegurança não resultará em um ambiente estéril, mas reduzirá a probabilidade de um animal ser exposto a doenças infecciosas.

É de suma importância conhecer os patógenos endêmicos na região para um controle efetivo. Animais imunossuprimidos, idosos e filhotes, tendem a compor maiores taxas de morbidade e mortalidade em determinadas doenças. Algumas doenças como FIV e FELV em felinos, podem levar a quadros de imunossupressão o que aumenta o quadro de infecções oportunistas. A parvovirose, por exemplo, possui uma incidência maior em filhotes o que leva a uma série de cuidados em com estes animais.

A redução da contaminação ambiental é um dos pilares de uma profilaxia, por isso a necessidade de uma limpeza e desinfecção, controle de vetores, além do controle da densidade de animais. Devido a esses fatores, é indispensável a adoção de um manejo sanitário adequado, tendo em vista a particularidade de cada vírus, variações estacionais, priorizando desinfetantes que atendam os patógenos endêmicos e se possuem ou não envelopes, entre outras variáveis.

Outro fator de extrema importância é o cuidado na introdução de novos animais. Esses animais devem passar por uma avaliação de um médico-veterinário, realização de uma triagem adequada e a realização de práticas sanitárias como um esquema de vacinação. Após isso, este animal precisa ficar um período em observação na quarentena até que seja apto a entrar em alguma subpopulação dentro do abrigo, segregado, preferencialmente, por faixa etária e porte. Práticas adicionais como o adequado fluxo dos funcionários nas diversas tarefas diárias no abrigo, monitoramento dos animais para identificar animais assintomáticos ou subclínicos, além de identificar qual é a capacidade máxima dos abrigos em prover os cuidados mínimos necessários aos animais, são importantes para a prevenção de doenças infecciosas.

REFERÊNCIAS

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