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Comportamento Animal em Abrigo

Escrito por: Kaique Leite de Oliveira Santos

Revisado por: Lucas Galdioli

O bem-estar mental dos animais são tão importantes quanto a saúde física e manejo ambiental coletivo, principalmente quando uma variedade de aspectos afeta diretamente a condição dos indivíduos abrigados, tendo em vista que, estes podem apresentar padrões comportamentais normais ou atípicos.

Cada animal tem uma variedade de necessidades psicológicas, determinadas por fatores espécie-específicos, genética, personalidade, socialização e experiências anteriores. Portanto, a satisfação das necessidades comportamentais individuais proporciona higidez aos abrigados.

A garantia de bons níveis de bem-estar é fundamental para diminuir o estresse, a imunossupressão (baixa de imunidade), as doenças e comportamentos indesejados que podem interferir em aspectos de gestão e na adoção. O destaque desse modelo promove os estados mentais positivos. O estado mental do animal poderá ser influenciado através de suas experiências positivas e negativas, cujas interações podem ser caracterizadas como relações de causa e efeito. Logo, a condição de contentamento de um animal não é fixa, isto é, seu bem-estar pode diminuir ou aumentar.

Diante do contexto do abrigo, o estado mental do animal correlaciona-se com a motivações e necessidades espécie-específicas. As atividades cognitivas e recreativas estimulam expressar seus comportamentos naturais. As mudanças contínuas devido a processo de admissão de novos animais desempenham um aspecto prejudicial para outros animais que também seguem amparados, causando efeito negativo para o grupo, submetendo-os a momentos de estresse e frustração por tempo indeterminado, pois muitos desses admitidos podem estar sendo admitidos com distúrbios comportamentais pré-existentes. De fato, quando esse tipo de problema não é reconhecido, consequentemente promoverá um subdiagnóstico da doença. Por essas razões, essa rotatividade deve ser minimizada e se ter uma triagem comportamental para o reconhecimento delas.

A maior dificuldade dos abrigos, atualmente, é garantir níveis aceitáveis de bem-estar aos cuidados individuais dos animais, sem perder o foco no grupo. A maioria dos abrigos não estão qualificados para atender às demandas físicas e comportamentais dos animais quando se faz necessária a permanência por mais tempo nesses locais.

A prevalência dos problemas comportamentais de animais nos abrigos, quando comparada à população dos domiciliados, tende a ser maior. À medida que estão entre as principais causas de devolução e abandono. A falta da percepção para garantir a saúde mental e aumentar o grau de bem-estar destes animais abrigados, os tornam mais propensos a desenvolverem alterações comportamentais e, consequentemente, diminuirá a taxa de adoção. Isso pode fazer com que o abrigo trabalhe além de sua capacidade de prover cuidados, resultando em uma superlotação e poderá entrar em um ciclo vicioso da capacidade excedida (aumento do tempo de permanência -> aumento da transmissão de doenças -> aumento do estresse animal -> aumenta de estresse da equipe -> diminuição do bem-estar -> diminuição da capacidade de prover cuidados).

Os indivíduos podem permanecer confinados por períodos curtos ou prolongados (sendo esta considerada prática não adequada, porém uma realidade nos abrigos brasileiros) e conservar essas condições ao longo de sua vida, ficando sujeitos a uma série de restrições das suas necessidades comportamentais, submetidos a estressores ambientes difíceis de controlar, com risco de agravamento do comportamento clínico, levando a desenvolver novas alterações, tornando-se preciso a implementação de um programa comportamental.

A avaliação comportamental é um indicador para o diagnóstico de bem-estar e deve ser realizada durante toda a estadia do animal, principalmente nos momentos mais importantes: admissão e saída. Além do reconhecimento do comportamento natural dos animais, deve-se atentar ao desenvolvimento de problemas etológicos negativos (estresse, agressividade, medo, ansiedade, dor – sensorial) – todos esses indicadores, podem gerar estresse. Em contrapartida, os critérios para uma avaliação comportamental sistemática de gatos são menos bem-definidos do que os utilizados em cães.

Quando os animais possuem suas necessidades comportamentais supridas, exibirão comportamentos naturais, incluindo níveis satisfatórios de apetite e atividade física, sociabilidade, entre outros. Enquanto, os indicadores comportamentais de estresse, conflitos sociais, dor ou outros tipos de sofrimento estão associados a ocultação persistente, interações hostis com outros animais, níveis reduzidos de apetite ou atividade física, depressão, isolamento social, frustração ou agressividade, comportamentos estereotipados ou anormais.

Muitos animais estão submetidos a manifestações de sinais de estresse não atenuados. Desvios do comportamento normal ou a aparência do animal também podem ser sugestivos ao estado de dor. A falta de controle sobre o ambiente é um dos fatores que mais estressam os animais e muitas vezes intrínsecos aos ambientes de abrigos. O ambiente estrutural e social que estimula atividades cognitivas e físicas é importante para o desempenho positivo de todas as espécies de animais abrigados, em que auxiliam os animais abrigados a viverem sem medo ou angústia e têm a possibilidade de demonstrarem seus os comportamentos naturais. Uma maneira de auxiliar isso é utilizar de ferramentas de enriquecimento ambiental, ou seja, um processo de melhoria do ambiente – tornando-o mais complexo, e do manejo comportamental dos animais confinados visando atender suas necessidades comportamentais.

O estresse está ligado ao desenvolvimento de comportamentos anormais. A relação com a falha de previsão e falta de controle ao gerenciamento do ambiente pelo animal, correspondentes a situações de isolamento social, confinamento prolongado, ausência de atividade física, entre outros fatores. Minimizar o estresse é necessário, a fim de diminuir os problemas que possam impedir a adaptação ao ambiente do abrigo e prolongar ou intensificar a ansiedade e o sofrimento mental.

A equipe do local deve-se atentar a um cuidado especial, para não colocar os felinos dentro do alcance espacial, visual, olfatório ou auditivo de cães. Os gatos podem ficar profundamente estressados pela presença dos ruídos de cães, assim, deve haver a separação de acordo com espécie.

O estresse reprodutivo ocasionado pelo ciclo estral e pela libido sexual pode diminuir o apetite, aumentar disputa por território e brigas, elevando o estresse social e emocional. Por esse motivo, os animais que são alojados a longo prazo em um abrigo precisam ser castrados, pois o rápido declínio nos comportamentos indesejados, além de atenuar significativamente o estresse desses animais, também facilitará o alojamento dos animais em grupo e a participação em atividades lúdicas supervisionadas e outras ações de enriquecimento social.

O desajuste ambiental está relacionado a baixos níveis de bem-estar, induzindo aos animais a desenvolverem estereotipias e comportamentos compulsivos, embora seja relevante ressaltar a importância do diagnóstico diferencial a fim de descartar qualquer alteração clínica, como alterações neurológicas ou metabólicas.

O medo sem agressão pode desencadear estresse crônico, onde se encontra relacionado a estímulos ambientais (trovões, sons ou ruídos), ou até mesmo com outras pessoas ou animais, sendo gerados por hipervigilância, falta de repouso adequado e imunossupressão. Alguns desses medos podem ser pré-existentes, por motivos de experiência individual ou falha no processo de socialização, e consegue ser entendido pelas mudanças inesperadas no ambiente e rotina. Como é evidente um alto nível percentual dessas manifestações comportamentais da população de abrigos, pode indicar um déficit no programa de manejo.

A agressividade dentro do abrigo é classificada como um comportamento social natural, forma usual de comunicação entre indivíduos e grupos, mas que podem criar conflitos e interações negativas importantes entre os animais. Uma outra complicação frequente é a coprofagia, que está associada a redução de enriquecimento ambiental, sem desafios para os animais. Nesse caso, o comportamento exploratório está voltado para a matéria fecal, já que é o único elemento disponível. E, inclusive, a vocalização excessiva está ligada ao estado de ansiedade descontínuo ou crônico, servindo como indicadores da condição psicológica dos animais. Portanto, o monitoramento se faz necessário para avaliar a eficácia das estratégias de enriquecimento ambiental e contexto emocional e mental da população.

As estadias mais longas, exigem planejamento ambiental constantes e permanentes, a fim de estimular os animais a terem maior controle acerca do meio em que vivem., de forma que, tenham oportunidades de realizar atividade lúdicas e interação social enquanto estão em seus recintos.

Os ambientes coletivos, fundamentais para evitar quadros de estresse durante o período de estadia, estão vinculados intimamente a condição emocional e física do animal. Animais em abrigos podem demonstrar mudanças comportamentais através da redução da atividade normal, e inclusive, o desenvolvimento de comportamentos estereotipados, visto que são ações repetitivas ou compulsivas, correspondendo a desafios realizados a longo prazo, podendo levar à ansiedade crônica. Desafios realizados a curto prazo corresponde a alterações na postura ou à fuga. Embora isso não significa que todos os animais desenvolvem um distúrbio comportamental ou apresentarem o mesmo distúrbio.

O planejamento do manejo deve seguir horários diários regulares e se tornar previsível, pois os fatores psicológicos negativos aumentam quando estes são imprevisíveis ou variáveis, gerando ansiedade e medo crônico. Contudo, a previsão de eventos estressantes permite uma maior agilidade para inclusão de ações importantes que reduzam essa condição, mantendo seguro os níveis de bem-estar dentro do ambiente. Portanto, pequenos cuidados na rotina diária podem promover experiências positivas aos animais.

A aclimatação dos animais a um ambiente em grupo pode levar dias a semanas, de modo que, sua utilização indevida desse modelo de alojamento induz ao estresse, medo e ansiedade em alguns membros do grupo, tornando o monitoramento individual dos animais mais difícil, em virtude da exposição a doenças infecciosas e lesões ou mortes por brigas, de modo a resultar em falha na detecção de possíveis alterações e no acesso inadequado às necessidades básicas.

Um alojamento adequado deve suprir as necessidades comportamentais mínimas dos animais, a fim de minimizar o estresse, fornecendo áreas separadas para micção/defecção, nutrição e repouso, além de espaço para levantar-se, caminhar ou repousar toda a extensão do corpo. Ambientes novos também são considerados um potencial estressor. Portanto, o ideal é que animais que estejam exibindo quadros de estresse, sejam alojados em áreas separadas, calmas e silenciosas, desde o momento de sua admissão.

Contudo, quando adaptados aos animais de forma individual, e se planejados, os alojamentos em grupo podem ser aceitos. Os benefícios incluem oportunidades de interação positiva com outros animais, através de brincadeiras, companhia, conexão física e socialização. Ainda, pode ser usado para proporcionar um ambiente mais enriquecido e variado. Por essa razão, o alojamento em grupo exige não só o uso de instalações adequadas, mas também o monitoramento cuidadoso dos animais por funcionários treinados.

Os animais não familiarizados, não devem ser reunidos em grupos ou pares até que uma análise clínica e comportamental seja realizada. Contudo, é indicado estes serem devidamente agrupados, de acordo com idade, gênero (sexo), saúde e comportamento compatíveis.

A abordagem dos funcionários influenciará diretamente no estabelecimento dos laços de confiança. A utilização de métodos de reforços positivos e amigáveis como de recompensa alimentar são eficazes e proporcionam intenções amigáveis para ressocializá-los. Desta forma, o enriquecimento ambiental associado ao manejo estrutural do abrigo são cuidados habituais e imprescindíveis que trazem retorno promissor para o desenvolvimento de comportamentos naturais, garantindo a reabilitação do animal, direcionando-o para adoção responsável.

A melhor forma de se obter um ambiente harmonioso entre cães e gatos é trabalhando a boa socialização no período adequado, de acordo com a dependência espécie-específica. Os aspectos relacionados ao comportamento de interações sociais permitem o reconhecimento de atitudes de manifestações de sinais comunicacionais e identificar se a manifestação dos sinais são normais ou representam algum problema. São utilizadas como método eficazes de enriquecimento e fundamentais para a redução de alterações psicológicas como estresse e ansiedade. De fato, são necessárias para apoiar os programas de adoções de cães e gatos, além de outras atividades como nutrição e higienização adequadas, diminuindo significativamente a produção de cortisol e risco a transtornos comportamentais.

O enriquecimento ambiental não deve ser caracterizado como uma medida opcional. É importante considerar a mesma importância que outros tipos de cuidados prestados aos animais, como nutrição e suporte médico.

A finalidade do enriquecimento é incentivar os comportamentos naturais da espécie, fazendo com que os animais desenvolvam maior controle sobre o seu ambiente, e assim, reduzir o estresse e melhorar o bem-estar, fornecendo estimulação física e mental, além de lhes proporcionar contato social e atividade física regulares.

Compreender o comportamento dos animais nos abrigos é importante para ressocializá-los. Reconhecer que existem situações que geram estresse, medo e desconforto é primordial para distinguir os tipos de comportamento dos gatos. Os principais transtornos comportamentais dessa espécie em abrigos são derivados de situações estressantes e agressividade.

Todos os animais, ao ingressar em um abrigo, serão submetidos a situações de estresse e medo. O manejo inicial desses indivíduos deve ser o mais adequado possível, respeitando as características da espécie. A condição de estresse pode ser benéfica para o animal em sua aclimatação, para fins de sobrevivência. Entretanto, quando essa situação se torna frequente, pode diminuir significativamente os níveis de bem-estar dos gatos, deixando-os mais suscetíveis a doenças. E, para um manejo efetivo, é preciso reconhecer o estresse e seus causadores, para assim, então, minimizá-los ao máximo, e sempre que possível, adaptar o animal ao novo local de convívio.

A insatisfação dos adotantes frente aos comportamentos anormais ou estereotipados dos animais é uma das principais razões da devolução no período de pós-adoção de cães. E, para gatos, o comportamento foi considerado o motivo de retorno mais frequente, conduzindo a uma série de adoções malsucedidas.

Tendo o conhecimento de que os problemas comportamentais são uma das razões mais comuns para o retorno de cães e gatos aos abrigos após a adoção, e também que os tutores que recebem conselhos comportamentais são menos propensos a desistir do que aqueles que não recebem nenhum suporte, o fornecimento do aconselhamento após a adoção é sugerido como uma estratégia chave para reduzir a taxa de devolução dos animais. O monitoramento e aconselhamento dos animais pós-adoção é indicado para verificar a adaptação do animal no novo ambiente, e questões referentes ao bem-estar e a qualidade de vida do animal adotado.

Qualquer critério para melhorar da qualidade de vida dos animais inclui o equilíbrio dos estímulos afetivos positivos e negativos, a partir da oferta de desafios que podem ser tratados com sucesso pelos animais, não ficando restrito apenas com a eliminação de estímulos aversivos.

O sistema de gestão dos abrigos brasileiros possui, ainda, muitas falhas, dentre elas, o desequilíbrio do número de animais admitidos e adotados, por conta das baixas taxas de adoção e altas taxas de abandono no Brasil. Provavelmente esses animais vão passar maior parte da sua vida em questões de confinamento. Dentro desse cenário, o bem-estar dos animais abrigados é uma situação muito crítica e urgente de serem resolvidas.

Os animais que lidam positivamente com o ambiente apresentam maior probabilidade de serem realocados/adotados. Portanto, quando melhora os níveis de bem-estar doa animais em situação de abrigos, não só ajuda a aumentar o grau de bem-estar, diminuir o sofrimento, como também aumenta a chance de adoção. O enriquecimento ambiental associado aos procedimentos de gestão adequados pode melhorar muito as habilidades de enfrentamento dos animais e adaptação aos ambientes de restrição, como são os abrigos. As emoções são contagiosas, dessa maneira, abrigos com estruturas e manejos adequados garantem emoções positivas e uma relação harmoniosa entre a equipe, visitantes e animais abrigados.

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