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Um Questão de Saúde Única: A Situação da Leishmaniose Visceral

Escrito por: Pedro Felipe Loiola de Souza

Revisado por: Rosangela Ribeiro Gebara

A leishmaniose visceral ou calazar é uma doença parasitária zoonótica, que acomete seres humanos e animais. O agente etiológico no Brasil é o protozoário Leishmania infantum e o vetor é a fêmea do inseto flebotomíneo Lutzomyia longipalpis, conhecido popularmente como mosquito palha, asa-dura, tatuquiras, birigui.  Somente em 2020, no Brasil, ocorreram 1933 casos em humanos e destes 165 vieram a óbito. A maior incidência de casos são da região Norte, seguido pela região Nordeste e depois a região Centro-oeste. Os sinais clínicos e sintomas em humanos podem ser discretos como febre, mal-estar e fraqueza, contudo, os pacientes podem desenvolver sinais mais severos como hepatomegalia (aumento do fígado), esplenomegalia (aumento do baço) e anemia. Em cães, os principais sinais clínicos são além da hepatoesplenomegalia, hiperqueratose em nariz (espessamento da pele), linfadenomegalia (aumento dos linfonodos) e onicogrifose (crescimento anormal das unhas). 

O cão, tanto em áreas urbanas como em áreas rurais, é o principal reservatório de L. infantum. Já a capacidade do felino em servir como reservatório ainda é incerta. A capacidade de animais selvagens em abrigar o parasito é geralmente baixa, sendo alta em algumas espécies de raposas e marsupiais apenas. A importância epidemiológica do cão está mais relacionada à proximidade com o ser humano e com a alta susceptibilidade do animal em contrair a infecção.

Então, a eutanásia massiva de cães soropositivos para leishmaniose seria a solução? Não, não há evidências de que a eutanásia desses cães diminua a transmissão zoonótica. Também, os elevados custos relativos a esta prática torna inviável para alguns municípios. Dessa forma, estratégias relacionadas à saúde única tornam-se mais importantes, pois tanto animais, quanto seres humanos e o ambiente em que vivem devem receber igual atenção por parte de equipes multidisciplinares. Com relação à saúde ambiental, o objetivo é evitar ambientes apropriados para a reprodução do flebótomo, ou seja,  trabalhar na adequada  remoção de lixo, entulho e serrapilheira (matéria orgânica acumulada no solo) e também implementar a utilização de telas de proteção. Já medidas relativas à saúde animal incluem a utilização constante de coleiras repelentes impregnadas por deltametrina 4%, estímulo à prática da guarda responsável, controle reprodutivo visando a diminuição da quantidade de animais errantes e realização de inquéritos soroepidemiológicos. Com relação à saúde humana, deve-se preconizar o diagnóstico e o tratamento precoce e a utilização de repelentes tópicos. Outras medidas como educação em saúde e educação ambiental devem ser estimuladas visando a consistência e sustentabilidade dos resultados. 

Ressalta-se a importância dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) para orientação da população quanto às formas de prevenção e a adesão ao tratamento, dos Agentes de Combate a Endemia (ACE) para a realização de ações de combate ao vetor e de seus criadouros e também de médicos e enfermeiros das Unidades Básicas de Saúde (UBS) realizando o diagnóstico correto e a posterior notificação de casos positivos.

O controle dos casos de leishmaniose visceral animal e humana ainda é um dos maiores gargalos da saúde pública nacional. Isto se deve principalmente à complexidade da doença que envolve vetor de difícil controle, hospedeiros com alta parasitemia cutânea e  que muitas vezes não apresentam sintomas, o tamanho das cidades e de suas regiões metropolitanas, a falta de informação da população nos aspectos preventivos, a resistência da população à entrada dos agentes, ausência constante de insumos médicos e veterinários e a ausência de uma solução de fácil implementação para sua prevenção. Maiores investimentos em insumos e em recursos humanos, educação em saúde, uso de vacinas eficazes e produtos repelentes, controle do vetor e a formação de equipes multidisciplinares em saúde seguindo um plano a longo prazo para a consistência das ações realizadas, são as principais formas de alcançar-se resultados exitosos  no combate à essa doença.  

Referências

DANTAS-TORRES, F.; BRANDÃO-FILHO, S. P. Visceral leishmaniasis in Brazil: revisiting paradigms of epidemiology and control. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, v. 48, n. 3, p. 151–156, jun. 2006. Acesso em: 09 mar. 2023.

DIETZE, R. et al. Effect of Eliminating Seropositive Canines on the Transmission of Visceral Leishmaniasis in Brazil. Clinical Infectious Diseases, v. 25, n. 5, p. 1240–1242, nov. 1997. Acesso em: 09 mar. 2023.

WERNECK, G. L. Controle da leishmaniose visceral no Brasil: o fim de um ciclo? Cadernos de Saúde Pública, v. 32, n. 6, 2016.

BRASIL. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2003.

BRASIL. Portaria GM/MS N 1.102, 13 de Maio de 2022. Disponível em: <https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-gm/ms-n-1.102-de-13-de-maio-de-2022-400069218>